A lei da escassez

Este artigo foi publicado no dia 08/04/2011, por José Pio Martins, que é economista e reitor da Universidade Positivo. Recebi o artigo de um amigo, Bernardo Picolli, colega de mestrado, e resolvi publicá-lo no blog pelo excelente trabalho do autor, em escrever de forma simples, conceitos econômicos complexos. Essa é uma competência louvável em qualquer economista.

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Artigo publicado em 08/04/2011, por José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

A lei da escassez

Leis jurídicas são importantes, são um bem público, mas elas não têm a capacidade de superar limites e restrições físicas

Definitivamente, Deus não é socialista. Ele não distribuiu a inteligência e os dons artísticos de forma justa e proporcional. Na adolescência, fiquei bronqueado com o Criador quando tentei jogar futebol e constatei que, em relação a mim e Pelé, nosso Senhor foi cruel. Ao Rei, Ele deu tudo; a mim, só mediocridade. Testei o Criador mais uma vez, quando fui estudar música. Novamente Ele me decepcionou. A Beethoven, Deus fez um gênio; a mim, um selvagem musical. Achei melhor dedicar-me a uma profissão que lidasse com números, porque nisso eu era bom. Mas o que isso tem a ver com economia?

Virou moda, no Brasil, acreditar-se em duas bobagens. Uma, que basta vontade política para implantar o paraíso na Terra. Outra é achar que a lei seja capaz de produzir milagres. O fenômeno repetiu-se na discussão do reajuste do salário mínimo. Determinado dirigente público chegou a afirmar que bastou vontade política ao governo do Paraná para fixar o maior salário mínimo estadual do País.

Sem entrar no mérito do salário mínimo no Paraná, cabe perguntar: se o problema é apenas questão de “vontade política”, por que economizar na bondade? Por que não fixar o mínimo em R$ 2 mil? Ouvi, um empresário afirmar que inflação se combate com vontade política e não com elevação da taxa de juros. Se ele quis dizer que é preciso vontade para agir, tudo bem. Mas, se quis dizer que a vontade substitui medidas de caráter econômico seria a primeira vez que alguém garante ser possível combater inflação com uma emoção: a vontade.

Felizmente, a Constituição protege o direito de enunciar bobagens e ninguém precisa se preocupar. Não há punição para a estupidez. O problema é que um parlamentar custa caro, para sair por aí dizendo coisas sem sentido. O chanceler alemão Konrad Adenauer tinha razão, quando também reclamava do Criador, ao afirmar: “O bom Deus, que limitou a inteligência dos homens, infelizmente não limitou a estupidez”.

Se vontade política e leis jurídicas resolvessem os problemas econômicos, bastaria exportar alguns legisladores para as nações pobres que a fome e a miséria seriam banidas naqueles países. Afora as ironias, só há uma forma de aumentar a fatia média do bolo de cada indivíduo: pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima do crescimento da população. Ou seja, a produção de pão tem de aumentar mais que o aumento do número de bocas. Então, por que o PIB não cresce mais? Por uma razão simples: escassez dos fatores de produção, de que os dois principais são a força de trabalho e o estoque de capital.

A força do trabalho é medida pelo número de trabalhadores multiplicado pela quantidade de horas anuais trabalhadas. O capital é a soma dos instrumentos de produção à disposição da população (estradas, pontes, prédios, portos, aeroportos, máquinas, ferramentas, equipamentos, aparelhos, móveis etc). Também é importante a “habilidade” com que o trabalhador maneja o capital. Se dermos a dois trabalhadores dois machados e duas toras de madeira para que produzam lenha, ao final do dia o volume de lenha de um será diferente do outro. A essa habilidade no uso do machado chamamos “tecnologia”.

Agora, imaginemos que a um terceiro lenhador seja dada uma motosserra elétrica. Esse certamente produzirá muitas vezes mais do que os dois primeiros juntos. Não porque ele seja mais habilidoso, mas apenas porque lhe foi dado um “bem de capital” muito mais poderoso e mais eficiente. Pois bem, o número de trabalhadores, a quantidade de horas trabalhadas anualmente, o tamanho do estoque de bens de capital e o nível tecnológico são, todos, fatores limitados e escassos. Por isso o tamanho do produto anual é limitado. Em países muito pobres, essa limitação (escassez) é tão grande, que o PIB é incapaz de alimentar minimamente a população.

A lei da escassez é uma das principais restrições ao progresso material da humanidade. Ela não é única. Há outras leis econômicas envolvidas no processo produtivo e somente com educação, desenvolvimento tecnológico, ética nas relações sociais e trabalho eficiente um país consegue progredir e vencer a fome e a miséria. Leis jurídicas são importantes, são um bem público, mas elas não têm a capacidade de superar limites e restrições físicas. Elas podem ajudar, mas não substituir os fatores reais de produção. Nenhuma vontade política e nenhuma lei podem me transformar num Pelé ou num Beethoven.


Link original: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1114035&tit=A-lei-da-escassez

BRASIL-RÚSSIA: COMÉRCIO INTERNACIONAL E EXPECTATIVAS FUTURAS NO BRIC

Esse é um artigo que eu e minhas colegas de profissão Priscila Saito e Irene Starepravo escrevemos em 2010. Foi publicado também na "Janela Econômica", periódico virtual das Faculdades Santa Cruz de Curitiba.

Janela Econômica




Priscila Saito, Walcir Soares Junior e Irene Starepravo.



As relações comerciais entre Brasil e Rússia se fortaleceram com o fim da URSS, com o Brasil sendo um dos primeiros países da América Latina a reconhecer a nova situação jurídico-política da Rússia em 1991, surgindo assim, interesses globais de comércio para ambos.


Nesse período, tanto a Rússia quanto o Brasil tiveram a abertura e modernização de suas economias e liberalização do comércio. O volume do comércio exterior foi de US$ 34,5 bilhões para a Rússia e de US$ 33,1 bilhões para o Brasil. Em 2008, o volume de exportação para a Rússia foi de US$ 4.652 bilhões, reduzindo em 2009 para 2.868 bilhões, uma queda bastante significativa na Balança Comercial.


Já a Rússia exportou para o Brasil em 2008 um volume de US$ 3.332 bilhões e US$ 1.412 bilhões em 2009. A maior parte do volume importado pela Rússia são produtos agropecuários brasileiros, carnes suínas, bovinas e aves, açúcares e confeitaria. A carne bovina teve uma redução na importação nos últimos anos por causa de possíveis casos de febre aftosa em alguns rebanhos no sul do Brasil, prejudicando esse comércio. Contudo, os acontecimentos recentes de boicote do frango americano contribuíram para a prospecção de novos aumentos na exportação de carne brasileira e tecnologia do sistema bancário exportada do Brasil.


As importações do Brasil concentram-se em matérias-primas para a fabricação de adubos e fertilizantes, alguns tipos de borracha, armas e munições entre outros. Nos primeiros meses do ano de 2010, a relação comercial entre estes países em comparação ao mesmo período do ano passado, teve uma melhora quanto ao volume de negociações, até porque os países integrantes do BRIC foram menos afetados com a última crise iniciada em 2007 nos EUA e conseguiram se recuperar mais rapidamente.


O percentual de participação dos dois ainda é insignificante. Dados de uma média da última década, as importações brasileiras representam em torno de 0,5% das exportações da Rússia, e as exportações brasileiras 1,5% das importações russas. Do total de exportações brasileiras, no máximo 1,5% foram destinadas à Rússia, e apenas 1% das importações totais foram russas. Um dos obstáculos encontrados neste sentido é o protecionismo russo – que vem diminuindo a partir das negociações da Rússia no ambito da OMC -, que obriga o Brasil a diversificar suas exportações. Assim a possibilidade de estímulo ao aumento das exportações de carne, café solúvel, e soja por exemplo, são enormes. Ainda existe a possibilidade de um aumento da pauta, com a inclusão de manufaturados tais como sucos concentrados, têxteis e calçados, e ainda produtos de alto conteúdo tecnológico como aeronaves civis.


Os obstáculos em relação às exportações são maiores que para outros países, pois vários são os problemas na cadeia de comercialização, como exemplo as commodities que ainda são transacionadas por intermediários internacionais, na maioria europeus, que além do domínio comercial e financeiro, tiram vantagem da desconfiança entre os empresários brasileiros e russos, em um mercado pouco conhecido.


O espaço para o crescimento das importações oriundas da Rússia, é a tecnologia complementar à brasileira, além de um interesse na realização de projetos em parceria visando setores da alta tecnologia como energia nuclear, e a indústria de aviação e espacial. Contudo, os obstáculos nas importações também se concentram nas desconfianças. Outra vez os motivos históricos se monstram salientes: a crença de que os empresários russos não possuem competências de gerenciamento, além do fato de que as mudanças sistêmicas na Rússia geram outras dificuldades, além da fragilidade dos bancos russos, que precisam buscar parcerias nos mercados emergentes para adquirir a confiança necessária.


Entretanto, nos dois lados das negociações, o enfrentamento destes obstáculos é iminente. Tanto o Brasil quanto a Rússia fazem parte do grupo de países emergentes que lutam contra o protecionismo dos países desenvolvidos – USA e Europa -, e possuem fortes interesses em ampliar suas negociações em novos mercados, além é claro, do comprometimento brasileiro em aumentar suas exportações para esses países.


Assim, as perspectivas comercias entre os dois países são muito otimistas, pois as situações conjunturais em que se encontram, estabelecem uma reciprocidade tamanha em relação ao comércio. Os mercados russos carecem de produtos do agronegócio e outras commodities brasileiras, além de demanda para os seus produtos, e o Brasil ter por objetivo ampliar suas exportações e investir em tecnologia, como a proposta da venda de aviões russos à Aeronáutica Brasileira, com inclusão da transferência de tecnologia.


É válido ressaltar que os interesses são comuns na ampliação desse mercado, tanto que em encontro recente, o presidente Lula, em sua quarta visita a Moscou, fez uma indicação da importância associada por ambas as nações ao desenvolvimento de novas relações que refletem o crescente poder econômico e político dos países do BRIC. Lula e Medvedev também assinaram um acordo de parceria estratégica que irá mapear a trajetória de desenvolvimento da relação entre os dois países, disse o Kremlin. O pacto faz um apelo para uma cooperação maior em energia - através da qual a Rússia está oferecendo tecnologia de energia nuclear e de liquefação de gás ao Brasil-- e em áreas de alta tecnologia como exploração espacial e construção de aviões, disseram autoridades de ambos os países. Tanto Lula quanto Medvedev dizem estar confiantes de que o comércio entre Brasil e Rússia poderia superar 10 bilhões de dólares ainda este ano.

Conto "Dezoito Anos" - Segundo lugar no Prêmio Santa Cruz de Conto e Poesia em 2009

Fonte original: http://www.santacruz.br/v3/setorcultural/resultado_premiosantacruzdecontoepoesia.html

Dezoito Anos


Dezoito anos, cabeça raspada, e a cara fechada de quem nunca olhou pro sol na vida. Por trás dos óculos escuros, o seu mundo era uma grande noite que não acabava nunca. Morava sozinho, tinha poucos amigos, e acordava cedo pra ir trabalhar, talvez sua vida fosse diferente se não se rendesse à ilusão de desacreditar. E o hoje o que ele fez? Bebeu, trabalhou e não havia tempo para pensar. Sonhar, a coisa mais difícil do mundo pra quem tinha medo de parar.

Casa alugada, carro emprestado, a namorada ele deixou pra trás, calça rasgada, tênis surrado, nem o dinheiro traz sozinho o que você não faz. Todos os dias virava a esquina de olhos no chão, e lembrava a família que ele abandonou. Naquele dia que brigou com a mãe, bateu a porta, e deixou quebrado mais de um coração.

No trabalho o tempo todo algo teimava em incomodar. Durante o sono, nos pesadelos, havia algo pra se consertar. O arrependimento quando vem é mais discreto do que a dor, que quando dói você não pode fugir dela, ou mascará-la, o que ele tentava constantemente fazer. A sua insônia tinha um nome, e era o preço que pagava por perder o amor de sua família. Na sua casa mesmo incompreendido, ele tinha um quarto para ficar, depois se achava que estava errado era só abrir a porta pra qualquer coisa se acertar. Agora o seu melhor amigo era cego, e se chamava solidão, a solidão não contraria nada, fica ali calada ao seu lado, aceitando tudo o que você quiser, mas dentro dela não há um coração, só o silêncio.

Entre os conflitos internos agora restavam um orgulho morto, e um medo escondido, então voltou pra casa. Contudo nada havia pra encontrar. Aquela terra vermelha, onde brincou um dia com seus irmãos, em longas tardes de sol, virara concreto do primeiro andar. Vizinhos olham assustados e contam pra ele o que aconteceu. Destino trapaceiro foi ainda mais rebelde que ele, a morte havia levado seu pai. Neste momento o que restava do seu sorriso desapareceu. Ficou sabendo que sua família foi embora, sua mãe ali já não podia continuar, e nem tinha porquê. Naquela terra maldita, perdeu filho e marido, e não tinha sentimento algum pra se apegar. Arrumara as malas e levara os filhos que ainda lhe restava para bem longe, onde o sol pudesse abençoar a vida rasgada ao meio que lhe tinha sobrado.

E essa é a história do que passos sem sentido pode fazer na sua vida acontecer. Cadê orgulho? Cadê raiva agora? Sua frustração já não podia esconder.

Longo silêncio e a sua vida passava em seus olhos como um filme de amor. Contudo não havia tão bonito um final feliz, em seu lugar, desesperança, medo e dor. Sentou no meio-fio fechou seus olhos, lágrimas quentes escorriam para o chão, e as vozes de consolo eram já tão longe, confundidas com o trânsito, eram em vão.

E tudo estava muito confuso em sua cabeça, luzes e brilho ofuscavam sua visão. O sol parecia estar se pondo dentro dos seus olhos, e o mundo girava loucamente, como que um furacão interno, que tira tudo, e embaralha as cartas na sua mente, sem te tirar do lugar. Então abriu seus olhos, acordou suado, olhou em volta estava sentado no chão. O chão gelado era do quarto de sua casa. Impossível. Levantou correndo, abriu a porta e viu seu pai sentado lendo seu jornal matinal como se nada houvesse acontecido. Como? Interrogações lhe brotavam na mente em milésimos de segundo. Sei pai tão confuso quanto ele:

- Ora garoto, onde é que você vai? Está muito cedo ainda.

E tudo não passava de uma miragem, um pesadelo que levou à compreensão. Da importância que talvez não percebesse, que essa riqueza estava toda em suas mãos. Era uma impressão de que voltava no tempo, o déjà-vu de ver sua família ali. Talvez seria essa a chance de consertar seu passado, e perceber talvez, o quanto era feliz.

E hoje eu encontrei com ele, foi pra mim que alegre ele desabafou, fui um velho amigo de sua infância, cujo qual um dia ignorou. Contou que tinha ganho uma segunda chance, ou ao menos foi o que imaginou. E nunca mais agirá com seu destino, antes de lembrar dessa lição, colocara uma virgula em sua vida, onde um dia colocara um ponto. Levei à sério as suas palavras, e escrevi esse conto.

Eu acredito, ou não acredito, ou desacredito, ou nem sei no que acreditar. Eu tenho liberdade de levar a minha vida até onde eu quiser chegar. Nem todo erro eu preciso viver pra aprender que não preciso errar, escuto tudo, vejo tudo, sinto a vida e ainda tenho voz pra te falar. Ainda há tempo de rever sua caminhada. Como é que você cuida do que tem? No que realmente você acredita a fundo? Se é satisfeito só por ter ou ser alguém? Imaturidade, experiência, ser um adulto e ter seus sonhos, uma criança que quer ser grande, ou ter apenas dezoito anos.